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Fiscalização do Trabalho aponta 116 infrações trabalhistas na Sabesp após programas de desligamento

Auditoria identificou problemas na jornada, falta de negociação sindical prévia nas dispensas em massa, indícios de pressão sobre empregados e impactos sobre os trabalhadores que permaneceram na companhia.

A Sabesp foi autuada em 116 infrações trabalhistas após uma fiscalização do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) sobre os programas de desligamento adotados pela companhia no período posterior à desestatização. Os resultados foram divulgados pelo Ministério em 26 de outubro de 2026, após a conclusão da primeira etapa de uma auditoria conduzida pela Superintendência Regional do Trabalho e Emprego em São Paulo.

Segundo o órgão federal, a fiscalização examinou os efeitos da reestruturação da empresa, que resultou na saída de mais de 5 mil trabalhadores. A apuração identificou irregularidades relacionadas às jornadas de trabalho, aos períodos de descanso, à negociação coletiva e à prevenção do assédio e da violência no ambiente profissional.

Fonte oficial:

Ministério do Trabalho e Emprego — Sabesp é autuada em 116 infrações trabalhistas após fiscalização sobre programas de desligamento.

Quadro de funcionários encolheu e sobrecarga aumentou

De acordo com os dados apresentados pelo MTE, o quadro de empregados da Sabesp passou de 12.999 trabalhadores, em 2022, para 8.717, em 2025. A redução corresponde a aproximadamente um terço do efetivo, em um processo de reestruturação que incluiu três programas de desligamento entre o fim de 2024 e novembro de 2025.

A auditoria também identificou problemas nas jornadas dos profissionais que permaneceram na companhia. A análise de registros de ponto de unidades da Sabesp em todo o Estado, entre dezembro de 2025 e maio de 2026, encontrou situações de trabalho por mais de 24 horas ininterruptas, intervalos inferiores a oito horas entre jornadas e escalas sem descanso semanal.

O levantamento apontou ainda que, somente em abril e maio de 2026, foram registradas 32.148 horas extras não pagas a 3.497 trabalhadores, segundo a fiscalização. A análise completa dos registros foi prejudicada pela ausência de um sistema de controle de ponto homologado pelo Ministério.

Os dados reforçam a preocupação com os efeitos da redução do quadro de pessoal sobre as condições de trabalho, a saúde dos empregados e a capacidade operacional da empresa.

Fiscalização aponta ausência de negociação sindical prévia

Entre os 116 autos de infração, a Auditoria-Fiscal do Trabalho destacou a dispensa em massa de mais de 5 mil trabalhadores sem negociação sindical prévia específica.

Conforme a publicação oficial, a Sabesp informou não dispor de atas de reuniões nem de acordo coletivo específico relativo aos desligamentos. A fiscalização considerou o entendimento do Supremo Tribunal Federal (STF), no Tema 638, que estabelece a necessidade de intervenção sindical prévia nas dispensas coletivas.

Para a auditoria, a participação dos sindicatos é fundamental para discutir critérios, avaliar consequências e buscar alternativas que reduzam os prejuízos aos trabalhadores e à sociedade.

A apuração também observou que a saída de um grande contingente de profissionais, sem redução correspondente da demanda por serviços, contribuiu para a sobrecarga dos empregados remanescentes e para o aumento dos conflitos trabalhistas.

Levantamento identificou relatos de pressão e assédio

Outro ponto da fiscalização foi uma pesquisa sigilosa realizada com 659 ex-empregados da companhia.

Segundo os resultados divulgados pelo MTE, apenas 19,6% dos participantes consideraram que a adesão aos programas de desligamento foi totalmente voluntária. Além disso, 38,1% afirmaram ter sofrido assédio moral, enquanto 60,9% disseram ter presenciado pressão sobre colegas.

A pesquisa também apontou que 71,3% dos participantes avaliaram que o ambiente de trabalho piorou muito ou de forma extrema durante a implantação dos programas.

A fiscalização identificou ainda indícios de tratamento discriminatório relacionado à idade e à existência de ações judiciais contra a empresa. Entre os ex-empregados ouvidos, 62,5% tinham mais de 50 anos quando aderiram aos programas e 67,8% possuíam mais de 20 anos de vínculo com a Sabesp.

Esses resultados integram a apuração conduzida pelos auditores e não devem ser confundidos com uma decisão judicial definitiva sobre cada situação individual.

Afastamentos por saúde mental e aumento de processos

A auditoria também identificou crescimento dos afastamentos relacionados a transtornos mentais e comportamentais. Conforme os dados divulgados pelo Ministério, a participação desses transtornos no total de afastamentos previdenciários passou de 14,5%, em 2020, para 26,4%, em 2026.

No campo judicial, as ações ajuizadas contra a Sabesp, que apresentavam média de aproximadamente 200 por ano entre 2019 e 2022, chegaram a 1.889 em 2025. Em 2026, até os meses de referência da apuração, o número já havia ultrapassado o total do ano anterior.

Para a fiscalização, esses indicadores evidenciam a dimensão dos impactos da reestruturação sobre as relações de trabalho e a necessidade de atenção às condições enfrentadas pelos empregados.

Multas podem chegar a aproximadamente R$ 3 milhões

O Ministério do Trabalho e Emprego estima que as multas referentes às infrações identificadas possam variar de R$ 2,51 milhões a R$ 2,99 milhões.

Os autos de infração ainda estão sujeitos a processos administrativos, nos quais a Sabesp tem assegurado o direito de defesa. Portanto, os valores definitivos dependerão das decisões administrativas correspondentes.

A fiscalização representa um importante registro oficial sobre os efeitos dos programas de desligamento e sobre as condições de trabalho após a reestruturação da companhia.

Para os trabalhadores e suas entidades representativas, os dados reforçam a importância da fiscalização, da negociação coletiva e do acompanhamento permanente das condições de trabalho, especialmente diante da redução do quadro de pessoal em uma empresa responsável por serviços essenciais de saneamento.

Créditos e fontes

Fonte principal: Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), por meio da Superintendência Regional do Trabalho e Emprego em São Paulo.

Apuração técnica: Auditoria-Fiscal do Trabalho, responsável pela fiscalização, análise dos registros trabalhistas e divulgação dos resultados.

Levantamento complementar: pesquisa sigilosa com 659 ex-empregados da Sabesp, cujos resultados foram divulgados pelo MTE.

Fonte original e referência para consulta: Publicação oficial do MTE, de 26 de outubro de 2026.