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Crise hídrica na Baixada Santista expõe fracasso da privatização da Sabesp

A atuação da Sabesp e os efeitos da privatização da empresa dominaram os debates da reunião promovida ontem por duas frentes parlamentares da Assembleia Legislativa, na Câmara de São Vicente. O encontro evidenciou uma série de falhas no abastecimento de água na Baixada Santista e no Vale do Ribeira que vem ocorrendo ao longo dos últimos meses.
O diretor do Sindicato dos Urbanitários (Sintius) Henrique “Marreta” afirmou que, enquanto o deputado estadual Caio França (PSB) foi o único da região contrário à privatização, o restante se posicionou favorável à venda da empresa à iniciativa privada e se aproveita do momento de crise, de forma oportunista, ao usar o saneamento como bandeira em razão da proximidade do calendário eleitoral.
Marreta deixou claro que o processo é inconstitucional, já que a Constituição paulista determina que os serviços de saneamento sejam prestados por concessionária sob controle acionário do Estado — condição que deixou de existir, uma vez que 82% do capital da empresa está atualmente nas mãos da iniciativa privada.
Marreta também chamou atenção para os impactos diretos da privatização sobre os funcionários da Sabesp. Segundo ele, a categoria vem sendo penalizada em duas frentes: no ambiente de trabalho e na vida cotidiana. “No local de trabalho está difícil, e fora dele também, porque somos trabalhadores e também dependemos da água”, desabafou.
Na esfera parlamentar, o deputado estadual Caio França (PSB) reforçou as críticas à privatização e afirmou que a medida agravou os problemas no abastecimento da região. Para ele, a água é um serviço essencial e não deve ser tratada sob a lógica do lucro.
O socialista lembrou que votou contra a privatização por entender que a Sabesp não era deficitária e destacou que a situação se deteriorou nos últimos anos, especialmente após a demissão de cerca de seis mil funcionários. Segundo França, a redução do quadro técnico comprometeu diretamente a qualidade do serviço.
Ele ressaltou que muitos dos profissionais desligados tinham décadas de experiência e profundo conhecimento das cidades da Baixada Santista. “Essas pessoas sabiam rua por rua, galeria por galeria. Hoje, muitas vezes, empresas terceirizadas não têm esse conhecimento”, reiterou.
O presidente da União dos Vereadores da Baixada Santista (Uvebs), Cadu Barbosa, também fez duras críticas à atuação da Sabesp e à condução do processo de privatização, apontando um agravamento significativo dos problemas de abastecimento, sobretudo no final de 2025.
Vereador de Praia Grande, Barbosa atribuiu diretamente ao Governo do Estado a responsabilidade pela crise hídrica, classificando como equivocada a forma como a privatização foi conduzida. Ele ainda denunciou o que chamou de “descaso” com os trabalhadores da empresa, ressaltando o impacto social da reestruturação.
Segundo o parlamentar, os efeitos da falta d’água atingiram a região de maneira desigual. Enquanto áreas nobres e bairros da orla sofreram menos com o problema, comunidades periféricas enfrentaram interrupções frequentes no fornecimento. “Na periferia, na quebrada, faltou demais”, afirmou.

Voz do povo
Além das manifestações políticas, a reunião deu espaço a relatos contundentes da população, que denunciaram a prática recorrente da Sabesp de reduzir a pressão do fornecimento de água durante o período noturno, especialmente em bairros periféricos.
Morador de São Vicente, José Cícero relatou que os cortes afetam principalmente as áreas mais afastadas do centro. Segundo ele, a interrupção noturna impede o enchimento das caixas d’água, comprometendo o abastecimento das residências ao longo do dia seguinte.
De Praia Grande, Jeferson Lins reforçou a denúncia e afirmou que, em diversos bairros periféricos, a água deixa de chegar a partir das 21 horas e só retorna na manhã seguinte, sem qualquer aviso prévio da concessionária.
Já a moradora de Itariri Cássia França demonstrou indignação com a situação vivida no município durante o Natal e o Ano-Novo. Ela questionou como uma cidade cercada por rios e cachoeiras pôde enfrentar semanas sem abastecimento de água no período noturno.
Moradora do Parque São Vicente, em São Vicente, Rosana Caruso reconheceu que o serviço da Sabesp sempre apresentou fragilidades, mas avaliou que a situação atual atingiu a população de forma muito mais intensa, gerando indignação e insegurança.
Já ol ex-vereador de Santos Fabiano Reis cobrou soluções urgentes para a falta d’água na Zona Noroeste, problema que, segundo ele, se agrava em períodos de alta demanda, como o Carnaval.