Matérias e Notícias

Privatização da Sabesp: lucro privado, prejuízo público

Entre os dias 24 de dezembro de 2025 e 5 de janeiro de 2026, milhões de moradores e turistas que escolheram a Baixada Santista e o Vale do Ribeira para curtir o período de Natal e Ano-Novo viveram o que muitos apontam como uma das mais graves quebras no abastecimento de água da história recente do Estado, devido a interrupções prolongadas, baixa pressão e dias sem uma gota de água em pleno verão.

Trata-se de uma crônica de uma tragédia anunciada pelo Sindicato dos Urbanitários (Sintius), que se agravou com a privatização da Sabesp, em julho de 2024, defendida com unhas e dentes pelo governador Tarcísio de Freitas (Republicanos). Os sócios dessa empreitada foram os deputados estaduais: 62 deles foram favoráveis à venda do controle estatal à iniciativa privada de uma companhia que deu, em média, R$ 3 bilhões de lucro líquido ao longo dos últimos anos.

Antes da privatização, eram realizadas manutenções preventivas regulares e mantidas equipes especializadas em elétrica, mecânica, equipamentos e tubulações, prontas para responder rapidamente a qualquer problema de abastecimento na Baixada Santista. Com a mudança no modelo de gestão, muitos trabalhadores foram demitidos ou desligados por meio de Programas de Demissão Voluntária (PDVs).

Esses cortes, por sua vez, atingiram principalmente profissionais mais experientes, com 20, 30 ou até 40 anos de atuação em sistemas complexos, sem que houvesse preocupação em formar substitutos ou preservar o conhecimento técnico acumulado ao longo do tempo.

Os impactos dessa fragilização refletiram-se diretamente no abastecimento de água, trazendo prejuízos imediatos à economia local. O desconforto e a insatisfação da população e dos turistas geraram uma imagem negativa para os visitantes e para a região como um todo.

Além disso, muitas famílias decidiram antecipar o retorno para casa, o que reduziu a movimentação em comércios, serviços, bares, restaurantes, hotéis, pousadas e colônias de férias, afetando de forma direta e significativa a economia regional.

Falsas promessas
Sob o discurso de modernização do sistema, atração de investimentos e redução de tarifas, o que a população passou a vivenciar foi um cenário oposto. A empresa passou a operar prioritariamente sob a lógica de mercado, em detrimento do caráter essencial do serviço de abastecimento de água e esgoto.

O Governo Tarcísio sustenou que a desestatização permitira a redução imediata das tarifas e viabilizaria R$ 66 bilhões em novos investimentos para acelerar a universalização do saneamento até 2029. No entanto, especialistas alertaram desde o início que uma queda tarifária sustentável dependeria da concessão de subsídios públicos, e não exclusivamente da comercialização de ações no mercado financeiro.

No final de 2025, os efeitos começaram a se materializar de forma clara nas contas dos consumidores: a Agência Reguladora de Serviços Públicos do Estado de São Paulo (Arsesp) autorizou o aumento de 6,11% nas tarifas de água e esgoto a partir de 1º de janeiro de 2026, o primeiro reajuste desde a privatização. Isso representa até R$ 1,07 a mais por metro cúbico consumido, com impacto direto no orçamento das famílias.

Outro ponto importante: após a privatização, contratos firmados com grandes consumidores que previam descontos foram rescindidos, resultando em reajustes que, em alguns casos, chegaram a 200%. O impacto atinge empresas e serviços essenciais, como hospitais, supermercados e indústrias, reforçando a percepção de que a gestão privada privilegia a lógica de mercado em detrimento da proteção social.

A água não é um item de luxo ou um ativo financeiro, mas um direito humano fundamental. Quando sua gestão é transferida ao mercado, sob a promessa de eficiência, mas gera prejuízos sociais e econômicos reais para milhões de consumidores, a pergunta que fica é clara: quem é que realmente lucra com isso?